Purgatório

purgatorium

Não me deixa, por favor
Quando eu me basto é tão triste!
Resta-me o vício da dor
Se você fizer que insiste.

Sombra — velha companhia
Mas, parceira que não é;
Injeta noite no dia
Enforca o pouco de fé

No que parimos nós dois
Quatro letras renascidas:
Nosso antes quer depois
E muito além desta vida.

– – –
Você pode ouvir o poema recitado aqui, por mim.

Consumidos

Consumidos

“Segredo de nada, de fato, não dói”
Dizem dois amantes mentirosos
No entanto, se nada não foi,
Se solo não houve
E sim, dois
Se sal foi trocado
Por par; então, estes lábios
Aprisionarão, para além da vida,
Verdades vermelhas nascidas mortas.

 

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Você pode ouvir o poema recitado aqui, por mim.

Propósito

Proposito1.jpg

Uns acham moeda
No acaso escuro
De um fundo de gaveta:
Fortuna mundana.

Outros enxergam
Placebos de paz
Em templos tantos:
Felizes fantasmas.

Quero-me mais
Sorrisos sinceros
E fome por verdade:
Ambição ambivalente.

Mas encontro minha vida
Nas notas cantadas
Por pernas abertas
(Outrora, fechadas)
Da mulher que amo.

– – –
Você pode ouvir o poema recitado aqui, por mim.

 

Ampulheta-fêmea

Ampulhetafemea1

A coisa mais linda do mundo
É uma ampulheta feminina
Sambando sem samba à sua frente:
Abelha-princesa distraída
Na valsa da vida.

Remexe pra esquerda, mulher…
E sorrio junto com teu corpo.
Moça, é hora da direita!
Fecha este pêndulo da beleza,
Que ela precisa de ti

Embora não tanto quanto eu:
Quero todos os teus lados,
Dentro e fora,
Hoje e amanhã.

– – –
Você pode ouvir o poema recitado aqui, por mim.

Sinuosa

sinuosa

Antes de sua exponencial maciez,
(Agora, minha)
Nunca conheci conforto igual:
Virei inquilino de suas curvas.

Estatisticamente improváveis,
Seus ângulos se tornam, todo dia,
Eternamente irresponsáveis
Por aqueles que seduzem.

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Você pode ouvir o poema recitado aqui, por mim.

Aridez

arid love by NG-cRoniK

“arid love”, por NG-cRoniK

Mesmo o mais alcoolizado humor
Só respinga o deserto cinza
Que é tentar amar na cidade.

Promessas movediças desenham na areia
Mil e um grãos de “para sempre”,
Todos eles (e elas), por fim, desmanchados.

Resta a bomba-relógio tragável
De vários vícios vingativos:
Eis a poluição em nossas veias.

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Você pode ouvir o poema recitado aqui, por mim.

Cardápio

Cardápio

Quantas possibilidades!
Esse mundo de fartura,
Com sua cultura de muitos,

Desejos que mastigam carnes,
Carnes que digerem sonhos:
Fica a indigestão da alma.

Opções demais, tão somente,
Mordiscam goles de romance
E vomitam mais opções.

– – –
Você pode ouvir o poema recitado aqui, por mim.

Por acaso

Poracaso1

Entre tantos números,
Meu código binário
Casou com o teu:
Um par que começa
No frio toque das teclas.

Hoje, tentar mesmo amar
É meio zero ou um
Tal que tudo ou nada;
Ignorar e bloquear ou
Coração e mudança

De status no Face
E olhos que brilham
Com sorrisos de lua.
Fato: demos um reset
Na Via Láctea.

Agora, nossas noites dizem
“Bom dia” a todos os sóis!
Sem maquiagem nem fugas,
Vamos curtir e compartilhar
Verdade e vida

Mas só entre nós,
Com carne e emoções
Quentes.

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Você pode ouvir o poema recitado aqui, por mim.

Faminta

Faminta1

Temos incomum fome;
Temos, em comum, fome
E sede demais.

Nosso cardápio é o mais simples
Nosso paladar, tão imaturo…
Nunca superamos a fase oral.

Mestra intuitiva da íntima gula,
Mostra ser devoradora nata:
Nada deixa de fora.

Por ora espectador fascinado,
Seguro os seus cabelos
E morro de novo.

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Você pode ouvir o poema recitado aqui, por mim.

Até secar

Até secar

Recuso mais este fardo,
Por isso, desista:
Não há nada aqui dentro
Que vá virar vida aí.

Leve o que lhe resta
De seu tempo
E derivados
Para outro.

Se ficar,
Acredite:
Vai sangrar
Até secar.

– – –
Você pode ouvir o poema recitado aqui por mim.